Levantamento da CNT/MDA aponta cenário de disputa acirrada no segundo turno, com eleições em outubro moldando a política nacional já neste semestre.
O Brasil vive, em junho de 2026, uma dinâmica eleitoral que vai muito além das tradicionais especulações de bastidores. Com as eleições presidenciais marcadas para outubro, os institutos de pesquisa já produzem levantamentos regulares que mapeiam o humor do eleitorado, e os números mais recentes colocam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em vantagem, mas longe de qualquer tranquilidade. A corrida eleitoral está em curso, e o país começa a perceber que 2026 será um ano político como poucos.
A pesquisa da CNT/MDA, divulgada na semana passada e registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-04256/2026, ouviu 2.002 pessoas de forma presencial entre os dias 11 e 15 de junho. Com margem de erro de 2,2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%, o levantamento aponta Lula com 41,8% das intenções de voto, seguido de Flávio Bolsonaro, do PL, com 28,2%. A diferença é expressiva, mas insuficiente para evitar um segundo turno, cenário que abre espaço para uma disputa intensa.
O que os números revelam além da liderança de Lula
Uma das leituras mais importantes das pesquisas eleitorais está no que os números não dizem diretamente. Com 7% de votos brancos ou nulos e 7,9% de indecisos, quase 15% do eleitorado ainda não definiu seu voto. Esse grupo será determinante para o resultado final, e ambos os campos políticos sabem disso. A tarefa de convencer os indecisos tende a ser o coração da estratégia eleitoral nos próximos meses.
Flávio Bolsonaro, que emerge como o principal adversário do PT, assume o espaço deixado pelo pai, Jair Bolsonaro, declarado inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral após condenação por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. A transferência de capital político entre pai e filho é um dos fenômenos mais observados pelos analistas eleitorais. Se essa migração de votos se consolida, Flávio entra no segundo turno com base sólida.
Os demais nomes listados pelo levantamento seguem bem abaixo: Ronaldo Caiado, do PSD, aparece com 4%; Romeu Zema, do Novo, com 2,8%; Joaquim Barbosa, da DC, com 2,3%; e Michel Temer, do MDB, com 1,9%. Nenhum deles, neste momento, representa uma ameaça real de acesso ao segundo turno, mas podem influenciar o resultado ao ceder ou absorver votos nas semanas finais de campanha.
O calendário eleitoral e as regras que já estão em vigor
O TSE tem atuado de forma ativa para organizar o processo. Desde o início de 2026, pesquisas de intenção de voto precisam ser registradas no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais (PesqEle) com até cinco dias de antecedência à divulgação, medida que visa garantir transparência e rastreabilidade dos dados. Além disso, desde 15 de maio, partidos e candidatos já podem realizar campanhas de arrecadação prévia de recursos por financiamento coletivo, sem que seja permitido pedir voto nessa fase.
A Administração Pública, por sua vez, está proibida de distribuir gratuitamente bens, valores ou benefícios até 31 de dezembro de 2026, com exceção das situações de calamidade pública, estado de emergência ou programas sociais já previstos em lei. A regra é uma garantia de que o aparato do Estado não seja usado como instrumento eleitoral, algo que o TSE monitora com atenção redobrada. Políticos que ocupam cargos no Executivo e pretendem disputar outros postos também precisam observar os prazos de desincompatibilização definidos pela legislação.
A Copa e as eleições no mesmo ano: desafio para o cenário econômico
Um elemento que torna 2026 ainda mais complexo é a convivência entre o Mundial de futebol e as eleições presidenciais. O economista Jorge Arbache, professor da Universidade de Brasília e ex-economista sênior do Banco Mundial, destacou em análise publicada pela Terra que a combinação de copa e eleições exigirá do governo um malabarismo econômico delicado. Anos eleitorais costumam pressionar o aumento dos gastos públicos, e o Brasil já enfrenta uma situação fiscal que demanda contenção.
Com a taxa Selic em patamar elevado e o debate sobre inflação e dívida pública como pano de fundo, os candidatos precisarão apresentar propostas críveis para a gestão das contas públicas. O eleitor, por sua vez, vive o ambiente da Copa com um olho no placar e outro nos preços. O resultado das urnas em outubro não dependerá apenas de intenções de voto hoje: dependerá do desempenho econômico, do custo de vida e de como cada candidato se posicionar diante dos desafios que o segundo semestre vai impor.
Fontes: Gazeta do Povo / CNT | TSE | Terra/RFI
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

