Conforme observa o Dr. Yuri Silva Portela, fundador do projeto social Humaniza Sertão, há uma realidade presente em milhões de lares brasileiros que raramente aparece nos protocolos de saúde do idoso: a do avô ou da avó que assumiu, de forma integral ou parcial, o cuidado dos netos. Essa função, exercida com frequência por necessidade econômica da família e com afeto genuíno por quem a desempenha, impõe ao organismo envelhecido uma demanda física e emocional que o sistema de saúde ainda não aprendeu a reconhecer, avaliar e apoiar.
Prepare-se para entender o que essa sobrecarga silenciosa produz na saúde de quem cuida. Acompanhe!
O perfil do avô cuidador e a dimensão do fenômeno
No Brasil, estima-se que mais de dois milhões de idosos sejam os principais responsáveis pelo cuidado de netos menores de 14 anos, fenômeno impulsionado pela inserção das mães no mercado de trabalho, pela ausência paterna, pelo encarceramento ou pelo uso problemático de substâncias por parte dos pais biológicos. Em contextos de maior vulnerabilidade socioeconômica, como os atendidos pelo projeto Humaniza Sertão, essa realidade é ainda mais prevalente e ainda mais invisível para os serviços de saúde.
Como pondera Yuri Silva Portela, o avô cuidador raramente se apresenta ao médico relatando sobrecarga pelo cuidado dos netos. Ele chega com queixas de dor lombar, insônia, fadiga persistente ou pressão alta descompensada, sintomas que têm causa orgânica identificável, mas que em muitos casos são agravados ou precipitados por uma carga de cuidado que o organismo envelhecido não foi biologicamente preparado para sustentar de forma contínua.
Impacto físico do cuidado de crianças sobre o corpo envelhecido
Cuidar de crianças pequenas impõe demandas físicas significativas: carregar, agachar, perseguir, brincar no chão, acordar durante a noite para atender chamados. Para um organismo jovem, essas demandas são rotineiras. Já para um idoso com sarcopenia, osteoartrite, insuficiência venosa ou alterações do equilíbrio, elas representam riscos concretos de lesão musculoesquelética, queda e sobrecarga cardiovascular. A lombalgia crônica, as tendinopatias de ombro e joelho e as quedas domésticas são queixas particularmente prevalentes entre avós cuidadores.

Na avaliação de Yuri Silva Portela, a anamnese geriátrica deveria incluir sistematicamente perguntas sobre o papel do idoso no cuidado de outros membros da família, especialmente crianças. Essa informação, raramente coletada de forma proativa, muda o olhar clínico sobre sintomas que, de outra forma, seriam tratados apenas em sua dimensão orgânica, sem considerar a causa que os alimenta cotidianamente.
Sobrecarga emocional e saúde mental do avô cuidador
Além do impacto físico, o cuidado dos netos impõe ao idoso uma carga emocional que combina amor genuíno, culpa, ressentimento e ansiedade. Amor pelos netos e desejo de protegê-los. Culpa por não ter a energia que tinham quando criaram os próprios filhos. Ressentimento, frequentemente não verbalizado, pela perda de uma fase da vida que esperavam dedicar ao descanso e ao cuidado próprio. Ansiedade sobre o futuro dos netos e sobre sua própria capacidade de continuar cumprindo esse papel.
Conforme aponta Yuri Silva Portela, esse conjunto de emoções conflitantes, quando não reconhecido e acolhido, favorece o desenvolvimento de depressão, transtornos ansiosos e isolamento social. O avô cuidador frequentemente abandona suas próprias redes de convivência, suas atividades de lazer e seus acompanhamentos médicos regulares porque o cuidado dos netos consome o tempo e a energia que antes destinava a si mesmo.
O que o sistema de saúde precisa oferecer a esse cuidador?
Reconhecer o avô cuidador como sujeito de cuidado, e não apenas como recurso familiar, é uma mudança de perspectiva que o sistema de saúde precisa incorporar de forma estrutural. Isso inclui avaliação específica da sobrecarga de cuidado nas consultas geriátricas, encaminhamento para suporte psicológico quando necessário e articulação com a assistência social para identificar recursos que possam dividir a responsabilidade do cuidado com o idoso.
Yuri Silva Portela conclui que cuidar de quem cuida não é generosidade institucional: é reconhecer que a saúde do avô e a segurança dos netos são indissociáveis, e que um sistema que ignora essa relação está falhando com as duas gerações ao mesmo tempo.

