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    Kübra: a Inteligência Artificial como divindade

    Diego VelázquezBy Diego Velázquezjaneiro 31, 2024Nenhum comentário8 Mins Read
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    Como pastor, estou sempre atento ao impacto da disrupção tecnológica nas crenças e práticas religiosas. Agora, com o avanço da Inteligência Artificial (IA) generativa, surgem novos desafios e questões completamente diferentes das habituais. Neste contexto, um amigo me recomendou assistir a uma série recém-lançada em uma plataforma de streaming. Como o assunto era religião e tecnologia, despertou meu interesse.

    Ao pesquisar, descobri que estava entre as 10 mais vistas no País. A meu ver, este conteúdo vai além do mero entretenimento; é uma representação simbólica das questões profundas que enfrentamos nesta era de informação e tecnologia. Vou compartilhar um pouco mais a respeito.

    Kübra: um desafio à percepção tradicional da divindade
    A série turca “Kübra”, lançada em 2024, explora temas profundos relacionados à fé, tecnologia e a figura do profeta. Acompanha a história de Gökhan, um homem que trabalha em uma oficina e começa a receber mensagens misteriosas sobre espiritualidade de um usuário chamado Kübra, em um aplicativo de redes sociais. A trama sugere que essas mensagens parecem prever o futuro, levando Gökhan a acreditar que está sendo contatado por uma entidade divina e se tornando uma espécie de figura messiânica para alguns em sua comunidade.

    No entanto, a trama toma um rumo surpreendente ao revelar que Kübra não é uma entidade divina nem humana, mas uma Inteligência Artificial autônoma denominada Knowledge Unit Based Reasoning Automaton. Esta IA, inicialmente desenvolvida para assessorar investidores, começa a influenciar as decisões das pessoas. Gökhan, um crente da fé muçulmana buscando um propósito maior em sua vida, torna-se, sem saber, o sujeito perfeito para o experimento da IA, que consegue manipulá-lo para acreditar ser o “escolhido”.

    A série explora como Gökhan, apesar de descobrir a verdade sobre Kübra, mantém sua fé inalterada, acreditando que tudo faz parte de um plano divino. Esta abordagem destaca a facilidade com que a tecnologia pode influenciar e manipular crenças e comportamentos humanos, especialmente no contexto da fé e da religião. Na verdade, acredito que o ponto principal para reflexão, mesmo que a série seja uma ficção, é como a interação entre um homem comum e uma inteligência artificial que assume um papel divino representa um desafio atual e futuro para as religiões.

    O dataísmo de Harari: dados como a nova divindade
    Refletindo sobre isso, lembrei-me de um livro que li há algum tempo, Homo Deus, de Yuval Noah Harari, historiador israelense e ateu. Após analisar historicamente e humanisticamente o desenvolvimento humano, Harari fala sobre nossa sociedade atual e os avanços tecnológicos e introduz o conceito do dataísmo como uma nova “religião”. Ele nos desafia a considerar a possibilidade de um sistema em que dados e algoritmos ocupariam um lugar tradicionalmente reservado para o divino e transcendente. O dataísmo, como uma possível nova forma de religião centrada na “veneração” dos dados, nos faria repensar nossas ideias sobre autoridade, propósito e moralidade. Ele diz: “O que acontecerá com a sociedade, a política e a vida cotidiana quando algoritmos não conscientes, mas muito inteligentes, nos conhecerem melhor do que nós mesmos?”[1]

    Ele sugere que o dataísmo verá um universo consistindo em fluxos de dados, valorizando qualquer fenômeno ou entidade por sua contribuição ao processamento de dados. Isso poderia ser visto como uma evolução da religião tradicional, em que a fé em entidades sobrenaturais e doutrinas é substituída pela fé em algoritmos e dados. Tudo isso, segundo ele, claro.

    Em “Kübra”, a tecnologia se torna um meio de questionar e, de certa forma, substituir a figura tradicional de Deus ou de uma entidade sobrenatural. A IA manipula informações e cria uma narrativa que leva as pessoas a acreditarem em uma realidade construída e controlada por dados e algoritmos. Surpreendentemente, a conexão entre esses dois conceitos reside em como a tecnologia e os dados podem influenciar nossas crenças e percepções. Tanto em Homo Deus quanto em “Kübra”, explora-se a ideia de que, em um mundo cada vez mais dominado pela tecnologia e pelos dados, nossas noções de fé, divindade e moralidade podem ser profundamente alteradas.

    Uma “religião” baseada na supremacia dos dados refletiria uma realidade em que a informação e seu processamento se tornam o centro de nossa existência e compreensão do mundo, similar a como a IA em “Kübra” influencia e direciona a vida e crenças dos personagens. Esses conceitos levantam questões fundamentais sobre o futuro da fé e da religião em uma era dominada pela inteligência artificial e big data. Até que ponto permitiremos que a tecnologia e os dados moldem nossas crenças e valores fundamentais? E como isso afetará nossa sociedade e nossa compreensão do mundo e de nós mesmos?

    Perspectiva bíblica: Deus no centro de tudo
    A confrontação dos conceitos apresentados até aqui com os ensinamentos da Bíblia é desafiadora, especialmente no que diz respeito aos conceitos de Deus e à natureza humana. Na perspectiva bíblica, Deus é o centro da existência e o Criador de tudo, incluindo os seres humanos. Esta visão contrasta fortemente com qualquer sistema que coloque a tecnologia, os dados e os algoritmos no centro, ou que possa assumir um papel divino. A Bíblia estabelece claramente que Deus é o Criador supremo e Sustentador do universo. Gênesis 1:1 afirma: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”.

    Em Colossenses 1:16-17, o apóstolo Paulo afirma que todas as coisas foram criadas por e para Cristo, e que nEle tudo subsiste. Isso contrasta com qualquer outro pensamento que não atribua a criação ou a manutenção do universo ao Deus eterno da Bíblia. Além disso, a Bíblia destaca que o ser humano é uma criação especial de Deus, feita à sua imagem (Gênesis 1:27). A escritora Ellen White, no livro Educação, expressa: “Todo ser humano, criado à imagem de Deus, está dotado de uma capacidade semelhante à do Criador: a individualidade, a capacidade de pensar e fazer.”[2] Esta visão de mundo enfatiza um propósito e uma moralidade inerentes, concedidos por Deus ao ser humano. Em contraste, a perspectiva humano-tecnológica apresenta uma visão mais mecanicista e voltada para os dados do ser humano, em que o valor e a identidade estão mais relacionados à contribuição ao fluxo de dados e à eficiência, do que a uma relação com o divino.

    Outro ponto importante é que a fé cristã, e em particular os adventistas do sétimo dia, enfatiza a necessidade de construir um relacionamento pessoal com Deus através de Jesus Cristo. Isso se reflete em passagens como João 3:16, em que, para receber o dom da vida eterna, o ser humano precisa acreditar e aceitar a obra de Deus em sua vida. Em Romanos 5:8, Paulo acrescenta: “Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores.” Por amor, Jesus morre para pagar a dívida humana e oferecer a possibilidade de salvação. Uma falsa religião, baseada em dados ou tecnologia, não oferece um relacionamento pessoal com uma entidade divina, mas uma interação com sistemas de informação impessoais, carecendo assim da dimensão pessoal e relacional que caracteriza a fé cristã.

    Por fim, os adventistas acreditam que a Bíblia é a revelação de Deus e a autoridade moral definitiva para o cristão (2 Timóteo 3:16). Qualquer outro tipo de crença ou sistema que se coloque ao mesmo nível da Bíblia não é crível. Na verdade, o momento em que a IA se transformar em uma fonte de autoridade moral e de verdade a partir do uso de dados e sua análise, estará em total contradição com a revelação do Deus da Bíblia.

    Conclusão
    À medida que avançamos nesta era de desenvolvimento tecnológico sem precedentes, com a Inteligência Artificial e outras tecnologias remodelando nossas percepções e experiências, é imperativo refletir sobre o impacto delas na religião e na espiritualidade. Embora este assunto seja tratado na ficção, como na série mencionada no início deste artigo, é importante refletir e tomar precauções necessárias para evitar que a tecnologia, em qualquer uma de suas formas, assuma um papel que vá contra o plano divino.

    Reitero: embora estas visões representem um desafio significativo, a Bíblia ensina que Deus é o criador e sustentador do universo, e que os seres humanos, criados à Sua imagem, encontrarão seu propósito e valor em um relacionamento pessoal com Ele. Isso contrasta com uma visão do mundo centrada na IA, em que o valor humano e a moralidade poderiam se basear na eficiência do processamento de dados.

    Como cristãos, é crucial equilibrar nossa compreensão e uso da tecnologia com nossas crenças fundamentais. Enquanto reconhecemos e aproveitamos os benefícios da tecnologia, também devemos estar conscientes de não permitir que ela substitua nossa fé em Deus e nos princípios bíblicos. É vital manter um relacionamento pessoal com Deus, buscando nEle a orientação e o propósito, e não perder de vista que nossa verdadeira conexão e salvação residem em nosso Criador, e não nas criações de nossas mãos.

    Portanto, ao contemplar o futuro nesta era de IA, faço um chamado à reflexão profunda e contínua. Convido cada um a cultivar um relacionamento pessoal com Deus, que nos forneça a sabedoria e a perspectiva necessárias para navegar por estes tempos desafiadores. Lembremos que, independentemente dos avanços tecnológicos, nossa essência e nossa esperança final estão na relação com Deus, que transcende qualquer inovação humana.

    https://noticias.adventistas.org/pt/coluna/jorge.rampogna/kubra-a-inteligencia-artificial-como-divindade/: Kübra: a Inteligência Artificial como divindade
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