O que há por trás da frase “ninguém mais vai me querer”? Taiza Tosatt Eleoterio, profissional com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, lembra que ela costuma ser menos uma opinião sobre si mesma e mais uma crença construída aos poucos. Dentro de um relacionamento abusivo, essa ideia pode ganhar força com críticas, comparações e isolamento, até parecer uma verdade.
Compreender de onde vem essa ideia ajuda a olhar para a dependência emocional sem julgamento e a perceber que a autoestima pode ser reconstruída com acolhimento e rede de apoio. Vale lembrar que permanecer em uma relação nunca é sinal de fraqueza, e sim reflexo de vínculos, medos e circunstâncias.
De onde vem a crença de que ninguém mais vai querer?
Poucas frases pesam tanto quanto “ninguém mais vai me querer”. Ela costuma parecer uma conclusão pessoal, mas raramente nasce sozinha: é construída aos poucos, a partir de comentários, comparações e silêncios que vão enfraquecendo a imagem que a pessoa tem de si. Com o tempo, o que era dito pelo outro passa a ser repetido por ela mesma, como se fosse um fato.
Taiza Tosatt Eleoterio descreve que essa crença costuma funcionar como uma explicação para o medo de ficar sozinha e para a dificuldade de imaginar outra vida. Ela não diz nada sobre o valor real da mulher, e sim sobre o quanto a relação passou a ocupar o espaço de todas as outras referências.
Como o relacionamento abusivo reforça essa ideia?
Em um relacionamento abusivo, a crença é alimentada por pequenos gestos repetidos: críticas sobre a aparência, a inteligência ou o jeito de ser, comparações com outras pessoas, piadas que humilham e a sugestão constante de que o parceiro é o único capaz de aceitar a mulher como ela é. Quando essas mensagens vêm acompanhadas do afastamento de amigos e familiares, ficam sem contraponto.
Taiza Tosatt Eleoterio nota que o ciclo da violência pode intensificar essa percepção, porque as fases de afeto e arrependimento criam a impressão de que aquela relação é a única fonte de carinho possível. Entre uma tensão e outra, o gesto de cuidado parece prova de que o vínculo é raro e precioso, o que dificulta enxergar o padrão.
Dependência emocional e a sensação de não ter alternativa
A dependência emocional acontece quando a rotina, as escolhas e a autoestima passam a girar em torno da relação, e a ideia de se afastar traz medo intenso. Nesse cenário, a frase “ninguém mais vai me querer” funciona como uma trava: se não há alternativa, ficar parece a única opção. Isso não é fraqueza, e sim reflexo de laços afetivos, de medos e, muitas vezes, de dificuldades práticas, como dinheiro, moradia e cuidado com os filhos.
Taiza Tosatt Eleoterio pondera que julgar a mulher que permanece só reforça o isolamento. Escutar sem cobrar decisões rápidas e sem apontar erros cria condições para que ela mesma comece a questionar a própria crença, quando se sentir segura para isso.
O que a autoestima tem a ver com essa crença?
A autoestima é a forma como a pessoa se enxerga e o valor que atribui a si mesma. Quando ela é enfraquecida por críticas constantes, a crença de que ninguém mais vai querer ganha terreno, porque deixa de existir uma imagem interna que a contrarie. Reconstruir a autoestima, aos poucos, é uma forma de devolver à pessoa a capacidade de se reconhecer.
Isso acontece em gestos simples: lembrar de qualidades que foram deixadas de lado, retomar atividades de que gostava, reencontrar pessoas que a valorizam e celebrar pequenas conquistas. Esses movimentos não resolvem tudo de imediato, mas fortalecem o empoderamento feminino ao lembrar que ela tem história, interesses e vínculos além da relação.
Como a rede de apoio ajuda a questionar essa frase?
Uma frase repetida em silêncio perde força quando é dita em voz alta e escutada com acolhimento. Amigas, familiares, vizinhos, grupos de convivência, lideranças comunitárias e serviços de assistência social formam uma rede de apoio comunitário que pode oferecer escuta, informação e referências diferentes das que a relação oferece.
Taiza Tosatt Eleoterio indica que a rede funciona melhor quando respeita o tempo da pessoa, sem pressionar nem exigir respostas imediatas. Perguntas abertas, como “como você está?”, e a oferta de presença constante ajudam a reabrir a conversa. Quando há medo ou risco, vale buscar orientação profissional e os serviços de acolhimento social da região, que podem ajudar a pensar nos passos com segurança.
O valor de uma pessoa não depende de ter um parceiro
A crença de que ninguém mais vai querer é construída, em um relacionamento abusivo, por meio de críticas, comparações e isolamento, e reforçada pela dependência emocional e pelas fases de afeto e arrependimento. Reconhecer esse mecanismo ajuda a separar o que foi dito do que é verdade e a olhar para si com mais compaixão.
Taiza Tosatt Eleoterio reforça que o valor de uma pessoa não depende de ter um parceiro ao lado e que a autoestima pode ser reconstruída aos poucos, com escuta e laços que fortalecem. Cada mulher tem o seu tempo para reconhecer o que viveu e imaginar um recomeço após abuso, e o apoio da comunidade ajuda a lembrar que existem outras possibilidades.

