Um padroeiro se destaca por unir fé e água em quase todo o litoral brasileiro e ao longo de grandes rios: o Bom Jesus dos Navegantes. Esse tipo de romaria, na qual embarcações substituem o cortejo a pé, desperta interesse particular em Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, atenta a expressões de fé que se manifestam de formas tão diferentes pelo país. Em Salvador, a procissão marítima acontece desde o século XVIII, quando marinheiros pediam proteção ao Bom Jesus contra as adversidades das longas viagens pelo mar.
Este artigo apresenta como funcionam essas romarias sobre a água, onde elas acontecem e por que algumas já enfrentam um desafio inesperado: a crise da própria navegabilidade dos rios que atravessam.
O culto que nasceu do medo do mar
A devoção ao Bom Jesus dos Navegantes surgiu em um contexto de intenso comércio marítimo e viagens longas e arriscadas, quando marinheiros passaram a pedir proteção ao santo antes de embarcar em travessias imprevisíveis. Em Salvador, a tradição remonta a esse período e chegou a contar com apoio direto do Estado até 1890, quando o governo imperial cedia uma embarcação oficial para conduzir a imagem durante a procissão pelas águas da Baía de Todos os Santos.
Conforme relata Daugliesi Giacomasi Souza, essa origem ligada ao risco da navegação explica por que o culto se espalhou também para comunidades ribeirinhas do interior do país, e não apenas para cidades litorâneas com porto marítimo ativo. Pescadores que dependiam diariamente do rio para sustento próprio e da família encontraram no mesmo santo protetor uma figura de referência espiritual, adaptando a procissão marítima original às condições específicas de rios como o São Francisco.
Um mesmo santo, rios e mares diferentes
Em Sergipe, Alagoas e Bahia, a Romaria de Bom Jesus dos Navegantes reúne romeiros de diferentes estados ao longo do Rio São Francisco, com destaque para a procissão fluvial realizada entre Propriá e Porto Real do Colégio, criada em 1914 por pescadores como forma de agradecimento por um milagre atribuído ao santo durante um temporal. Em Bom Jesus da Lapa, na Bahia, a mesma devoção já soma décadas de tradição, reunindo centenas de fiéis em embarcações que percorrem um trecho do rio antes de retornar à margem para a procissão terrestre pelas ruas da cidade.

Na compreensão de Daugliesi Giacomasi Souza, essa capilaridade regional mostra como uma única devoção consegue se adaptar a geografias completamente diferentes, do litoral urbano de Salvador às comunidades ribeirinhas do Baixo São Francisco, sem perder o elemento central que a define: a água como caminho de fé. Em Sergipe, a romaria já recebeu status elevado dentro da estrutura da Igreja, ampliando-se de uma celebração paroquial de poucos dias para um mês inteiro de peregrinações e visitas da imagem a escolas, hospitais e comércios da região.
Como funciona uma procissão fluvial?
O momento central dessas celebrações costuma reunir dezenas de embarcações, entre barcos de pesca, catamarãs e lanchas cedidas por moradores, conduzindo a imagem do santo em um andor especialmente preparado para a travessia pela água. Nesse quesito, Daugliesi Giacomasi Souza frisa que as equipes da Marinha do Brasil frequentemente acompanham o trajeto, orientando condutores e passageiros e auxiliando no embarque e desembarque de fiéis, já que a segurança na água exige cuidados que uma procissão terrestre tradicional não demanda.
Em razão destes fatores, a logística desses eventos também depende diretamente das condições climáticas do dia, já que ventos fortes ou mau tempo podem alterar o roteiro planejado ou até obrigar o cancelamento da travessia, substituída então por uma procissão inteiramente terrestre. Bandas de música, queima de fogos e a chamada alvorada festiva, que percorre as ruas ainda nas primeiras horas da manhã, completam a programação em praticamente todas as versões regionais dessa celebração.
Entre a fé e a crise do rio São Francisco
Um detalhe recente tem chamado atenção de quem acompanha essas romarias fluviais mais de perto: o próprio Rio São Francisco, palco histórico de boa parte dessas procissões, enfrenta hoje condições de navegabilidade muito piores do que as registradas décadas atrás, quando as tradições começaram. Trechos que antes recebiam embarcações maiores com facilidade hoje demandam cuidado redobrado, refletindo décadas de alterações no volume de água do rio e no regime de cheias que antes sustentava a navegação ao longo de todo o ano.
Conforme sustenta Daugliesi Giacomasi Souza, esse cenário transforma a própria procissão em um lembrete simbólico da relação entre fé e natureza, já que a celebração que nasceu para agradecer proteção durante travessias hoje também precisa lidar com as limitações físicas impostas pelo próprio rio que a sustenta. Comunidades ribeirinhas que dependem do São Francisco tanto para pesca quanto para tradição religiosa acompanham de perto essa mudança, conscientes de que preservar o rio também significa preservar parte importante da própria identidade cultural da região.
Poucas tradições revelam tão bem a relação do Brasil com suas águas quanto essas romarias, que seguem navegando entre fé, memória e um rio que muda mais rápido do que a devoção que ele carrega.

